Publicado por: Eduardo Wagner | novembro 24, 2007

Indignado?

Lendo um post que o Inagaki do Pensar Enlouquece escreveu sobre os noticiários de TV, me fez pensar um pouco no trote do seqüestro relâmpago que eu recebi na última quinta feira. Estávamos eu, Ana a minha companheira e mais uns amigos almoçando em um restaurante próximo de casa quando toca meu telefone, o identificador de chamadas mostrava número desconhecido. Ao atender uma voz chorosa que demonstrava ser de um homem por volta de 20 anos dizendo: – Pai, me ajuda, me ajuda pai. Na hora saquei que era o famigerado trote do seqüestro, onde os safados tentam extorquir a pessoa do outro lado da linha simulando que seqüestrou alguém da família. No meu caso foi furada para ele, pois tenho 31 anos e não tenho filhos, muito menos com essa idade. Fiquei calado e disse para meus amigos o que se passava e passei o telefone para ouvirem, e logo o cara sacou que desta cartola ele não sacaria nenhum coelho então desligou.

gun-phone.jpg

Mas naqueles 30 segundos em que fiquei ouvindo, pude perceber a voz de crianças brincando próximo ao marginal que tentava fazer a extorsão e também vozes de pessoas conversando, talvez esperando a vez de aplicarem o golpe também.

Que futuro está reservado a estas crianças? Crescendo ali, ao lado de seres que são capazes de utilizar do desespero alheio para provavelmente arrumar grana ou cartões telefônicos para outros safados que estão na cadeia. Estas crianças têm um cotidiano cercado de armas, mortes, drogas e todo tipo de desgraça que se possa imaginar. Crescem achando que aquilo ali é a vida real e normal, onde a vida humana não vale mais do que uma cerveja vagabunda e quente do boteco da esquina. Provavelmente vai crescer e seguir o caminho do adulto que estava ali no telefone falando comigo. Talvez vá à escola apenas para comer a merenda oferecida pelo estado. Não está lá para aprender algo, e sim para conviver com seus pares que compartilham do mesmo destino.

Voltando ao telefonema, não fiquei indignado com o ocorrido, não pelo fato de que estamos ficando acostumados e sim porque a cada dia, a conta gotas nós brasileiros vamos descobrindo que o fundo do poço tem porão.

O quanto somos extorquidos a cada dia?

Só os impostos oficiais nos tiram cerca de 40% de nossa renda. Todos os conchavos políticos para aprovarem algo ou pouparem alguém da degola tem um custo, que sai do bolso do cidadão. Grande parte dos impostos pagos vai para o ralo que alimenta estes conchavos, para as propinas do digníssimo deputado, para os 10% do prefeito pela reforma do hospital, e sem esquecer os 15% para o governador e para a empreiteira que é de um senador e vai realizar construção de uma estrada. Só que como não presenciamos isso, não vai fazer parte de nosso cotidiano, e por fim acabamos não nos importando, pois só nos importamos com aquilo que nos assusta diretamente, pois mexe com nossa vida e de parentes, então fazemos de conta que não existe, de que não nos afeta, de que não é uma das razões daquela criança não ter futuro, e sem perceber vamos cada vez mais adentrando ao fundo do poço.

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Responses

  1. Pois é, Eduardo. E quando pensamos que o fundo do poço chegou, eis que sempre aparece algum fato mostrando que é possível cavar mais fundo ainda. 😦


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